Playboy desvenda o Marketing nas empresas familiares
Quando Christie Hefner começou como
estagiária na Playboy, aos 24 anos, a empresa era apenas uma revista.
Hoje, 30 anos depois, transformou-se em uma das marcas mais
reconhecidas do mundo do entretenimento. Formada em Literatura Inglesa
e Americana pela Brandeis University, Christie sucedeu o seu pai no
comando da empresa, o legendário Hugh Hefner, fundador da revista
masculina mais conhecida no mundo.
Em três décadas, ela diversificou o portfólio de produtos da Playboy e
criou uma cultura de mercado dentro de uma empresa familiar. Orientada
pelos consumidores, a ex-CEO da Playboy Enterprises e eleita pela
revista Forbes por três anos consecutivos como uma das “100 mulheres
mais poderosas do mundo” levou o conceito da revista para as telas da
TV, do celular, lançou produtos licenciados e criou o Playboy Club
& Casino no Palms de Las Vegas, nos Estados Unidos.
Christie Hefner acredita que as empresas familiares têm virtudes, uma
cultura empresarial diferenciada e que só não inova aquela que não quer
correr riscos, tal qual as empresas tradicionais. Em entrevista
exclusiva ao Mundo do Marketing, a executiva, que estará no Brasil para
o II Fórum HSM de Empresas Familiares nos dias 18 e 19 de maio,
explicou que o Marketing nas organizações familiares deve seguir o
mesmo caminho das gestões empresariais.
Mundo do Marketing: Como o Marketing é tratado nas empresas
familiares?
Christie Hefner: A maneira como o Marketing é conduzido tem
bastante a ver com a história e os interesses do fundador. Então posso
pensar em diversas empresas, a Playboy seria uma delas, assim como a
Estee Lauder, a empresa de cosméticos, ou a Alberto Culver, a empresa
de produtos para casa, em que o fundador veio para o mercado como um
empresário mais criativo e, portanto, com uma maior orientação para o
Marketing. Vamos dizer que, por comparação, o empresário era mais
orientado pelas operações ou pela parte financeira. Então essas
empresas se beneficiaram por terem um forte foco de Marketing e
promoção anteriores.
Mundo do Marketing: Quais erros são mais cometidos em empresas
familiares?
Christie Hefner: Pela minha experiência, os negócios em famílias
estão menos aptos a aceitar a inovação e existe um maior risco de não
aceitar novas ideias. Veja, não estou familiarizada com empresas
familiares de quatro ou cinco gerações que podem ser menos
empresariais. Mas, pelas minhas experiências e observações, normalmente
negócios familiares têm duas ou três gerações no máximo e foram
iniciados de uma maneira muito empresarial.
Mundo do Marketing: A tradição dentro de uma cultura familiar pode
inibir a inovação?
Christie Hefner: Ela pode impedir a inovação por não querer correr
ricos e por não conseguir mensurar o retorno das novas ideias. Muitas
empresas familiares, no entanto, começam de forma empreendedora,
puramente inovadoras. O perigo é que há muitas boas ideias, muita
inovação, mas disciplina insuficiente para implementá-las.
Mundo do Marketing: Fala-se mais dos pontos fracos das empresas
familiares do que de suas forças. Quais são elas?
Christie Hefner: Acredito que há três forças principais. Uma é que
é provável que uma empresa familiar, sendo uma instituição, se importe
ou cuide um pouco mais do seu pessoal. Acredito que isso seja uma
força. Em segundo lugar, acredito que haja um comprometimento muito
grande com a qualidade, acho que pelo fato de ter o seu nome “na
porta”. E, por último, há uma tendência a ter uma visão de longo
prazo, para que haja menos riscos em um negócio em família, de maneira
que não há uma preocupação muito grande sobre cada decisão simples ou a
curto prazo que leve a uma má tomada de decisões. E sobre isso eu
acho que é uma tendência maior por existir uma sensação de estar
protegido por toda uma jornada.
Mundo do Marketing: Como fazer um negócio familiar passar de geração
para geração?
Christie Hefner: A minha experiência pessoal é apenas da geração
fundadora para mim. A responsabilidade da próxima geração é estar
pronta e mostrar respeito. E a responsabilidade da geração que está
sendo substituída é apreciar os benefícios que são provenientes da
mente jovem da nova geração e ter a confiança de que a organização e a
cultura gerais foram projetadas pelas gerações anteriores. Ou seja,
quando uma geração passa o legado para a outra, deve saber que não
poderá mais influir no curso da cultura da empresa. Essa influência é
intrínseca.
Mundo do Marketing: E como deveria ser o gerenciamento de marca em uma
empresa familiar?
Christie Hefner: Em um negócio que lida com público, o
gerenciamento de marca deve ser de frente e central. No nosso caso,
construí estratégias para o crescimento com a ideia central de que nós
somos uma empresa focada na marca. Não uma empresa de publicações, nem
uma empresa de mídias, mas uma empresa focada na marca. Isso pode ser
um exemplo extremista devido à força da marca Playboy, mas acredito que
em todas as empresas, não apenas em empresas B2B, mas em empresas B2C,
o gerenciamento de marca deve ser frontal e central e não o trabalho de
uma pessoa, como o responsável pelo Marketing. Deve ser uma preocupação
de todos, começando do diretor executivo, em termos de quais decisões
são tomadas, sobre onde investir, não apenas o capital, mas a marca
propriamente.
Mundo do Marketing: Playboy se tornou um grande negócio. Quais foram os
princípios que nortearam este caminho?
Christie Hefner: Não surpreendentemente, acredito que os
princípios tenham muito a ver com o que estamos conversando. Então
trabalhamos duro para manter o que há de melhor em ser uma empresa
familiar: um comprometimento com a qualidade e a inovação e, ao mesmo
tempo, ser mais disciplinados em determinar em quais negócios tínhamos
mais vantagens competitivas e na melhor forma de estar em tais
negócios. E então focamos em construir a marca. Usamos isso como a
medida mais importante de nosso sucesso. Aí nos perguntávamos “A marca
é mais popular ou não?” “Estamos alcançando mais pessoas?” “Temos mais
consumidores?” “Tínhamos mais fãs?” e assim fomos capazes de chegar
onde chegamos com a expansão internacional, a expansão de mídias e a
expansão do licenciamento.
Mundo do Marketing: Vocês se tornaram um grande grupo do
entretenimento, quais foram os desafios?
Christie Hefner: Um dos desafios da empresa foi, e ainda é, que na
mídia e na indústria de entretenimento vem havendo muita consolidação,
assim como em outras indústrias. Como a Playboy é uma empresa de porte
médio independente, e não uma grande empresa, não é tão simples
negociar com empresas a cabo, fornecedores de satélite, varejistas ou
anunciantes. Acredito que este seja um desafio crescente para empresas
independentes menores.
Mundo do Marketing: A indústria da qual a Playboy faz parte é uma das
que mais vende no mundo. Quais são os motivos para isso?
Christie Hefner: A razão da Playboy ser grande se deve ao
fato de vender entretenimento e um estilo de vida que é atraente para
homens em contextos de entretenimentos diferentes. Como o que temos em
Las Vegas; assim como, claro, no formato da revista. Acredito que
entretenimento de qualidade é a maior exportação dos EUA e é um
interesse universal.
Mundo do Marketing: Você falou sobre entender o cliente, o que ele
quer, o que ele sente. O que podemos fazer para entender o
consumidor?
Christie Hefner: Acho que é um equilíbrio entre ouvir o
consumidor, fazer pesquisas frequentes com nossos leitores, os
telespectadores do canal, nossos compradores, e acoplar a isso o
sentido da marca. O que a sua marca representa. Você não pode delegar
isso aos consumidores, o controle da marca ou do produto. Mas é preciso
estar ciente e ouvi-los. Para falar da revista, de acordo com os
interesses do homem de hoje, incluímos mais tecnologia, mais sobre
saúde e bem estar do que o que era falado nos anos 1950, quando meu pai
começou a Playboy. É preciso balancear o que você fornece, no nosso
caso o estilo de vida Playboy, e o que ele significa, com base nas
mudanças que ocorrem no decorrer do tempo e como os interesses e
necessidades dos consumidores evoluem.
Fonte:
Mundo do Marketing
http://www.mundodomarketing.com.br/7,13993,playboy-desvenda-o-marketing-nas-empresas-familiares.htm
